A pausa continua no mapa
O Nobody Quits parou depois de 2021; este texto é sobre como foi parar e por que o buraco fica visível neste site.
Um projeto chamado Nobody Quits parou. Eu sei como isso soa. Se um romancista desse esse nome a um personagem e depois o fizesse largar tudo, o editor circularia em vermelho e escreveria na margem “óbvio demais”. A vida não tem editor, então aqui estamos.
Magic Island saiu no fim de 2021. Depois disso, por muito tempo, não saiu nada. Não vou passar pelos motivos um por um. Alguns são pessoais, outros são chatos, e os chatos levariam mais tempo para contar. O que eu posso descrever é como foi parar visto de dentro, porque não teve nada a ver com o que eu teria imaginado.
Como isso para de verdade
Eu sempre imaginei o fim de um projeto como uma decisão. Um dia, uma frase, talvez uma porta batendo. Acabou sendo uma frequência. Nada é desligado; as coisas só passam a ser ligadas cada vez menos. Você abre o arquivo do projeto um pouco menos do que na semana anterior, e não percebe, porque ninguém faz essa estatística. As sessões ficam mais curtas, e a versão que você salva no fim já não é claramente melhor do que a versão com que começou. A pasta vai se enchendo de arquivos chamados “final”, “final 2” e “final new mix”, e nenhum deles é. Por um tempo você diz a si mesmo que a pausa também faz parte do trabalho, e por um tempo isso é verdade.
Depois, em algum momento, deixa de ser. O equipamento continua lá e nada está quebrado. O que sumiu foi o puxão, aquilo que antes me fazia sentar para trabalhar antes de eu ter decidido. Notei a falta dele do jeito que a gente nota que a geladeira parou de zumbir: primeiro o silêncio, depois a pergunta de há quanto tempo está assim.
Não teve drama, e acho que vale dizer isso, porque as histórias que a gente conta sobre artistas que param costumam vir com burnout, um escândalo ou pelo menos uma volta heroica. A minha foi mais quieta, e desconfio que o mais quieto é o mais comum. As coisas simplesmente pararam de chegar, e eu parei de fingir que chegariam.
Por que não esconder
A maioria das biografias de artistas é uma única linha contínua. Estreia, crescimento, a virada, a nova direção. Os buracos são cortados ou rebatizados de “um período de reflexão”, uma expressão que ninguém nunca usou em voz alta sobre a própria vida. Eu entendo por que fazem isso. Uma linha parece impulso, e impulso é o que todo mundo está vendendo.
Neste site a história atravessa o espaço, e no lugar da pausa há um trecho de nada. O terreno despenca, o som fica em silêncio, e você precisa atravessar esse trecho para chegar ao presente. Eu pedi assim de propósito. Deixar isso de fora seria uma pequena mentira, e pequenas mentiras numa biografia costumam se espalhar: depois que você esconde um buraco, a próxima coisa que começa a polir é a música.
Tem também um motivo musical, e para mim ele é o mais convincente. Já escrevi aqui sobre o set como um único espaço contínuo, onde a tensão se acumula por minutos e os momentos em que você segura alguma coisa importam tanto quanto os momentos de descarga. Se eu acredito nisso sobre um set, seria estranho acreditar no contrário sobre um projeto. Uma peça longa de música tem pausas. Algumas são curtas, outras duram o bastante para o público começar a olhar o celular. A pausa continua fazendo parte da peça. O que vem depois dela soa do jeito que soa, em parte, por causa de quanto tempo o silêncio durou.
O que a pausa fez
Não quero transformar isso numa lição. Parar não me deixou mais sábio, e não acho que o silêncio seja fértil por si só. Às vezes ele é só silêncio, e não vem colheita nenhuma depois, por mais bonita que soe a versão contrária nas entrevistas.
Mas uma coisa mudou enquanto nada acontecia, e mudou fora de mim. Quando o Nobody Quits começou, a ideia do set como um único espaço vivo era sobretudo uma atitude que precisava ser sustentada à mão. Nos anos da pausa, as ferramentas mudaram: agentes, sistemas generativos, máquinas que tomam decisões em tempo real, uma mesa de som que pode ser comandada por algo que escuta. Eu não planejei a pausa em função disso, e estaria mentindo se dissesse que passei esse tempo esperando a tecnologia. É mais que, quando eu voltei, a sala estava mobiliada de outro jeito.
Então isto é uma volta, mas não é uma reunião nem um relançamento. As faixas antigas estão aqui, a ideia antiga está aqui, e o que as toca é novo.
Sobre o nome
Por um tempo eu achei que o nome tinha virado uma piada às minhas custas. Nobody Quits, fora a única pessoa responsável por ele. Agora eu leio de outro jeito. Nunca foi uma descrição, porque uma descrição pode ser verificada, e esta não passaria no teste. Funciona melhor como uma instrução que dá para quebrar por um tempo, desde que depois você volte a ela.
O buraco continua no mapa. Se você rolar através dele, vai ouvir como ele soava, ou seja, quase nada. Prefiro que você ouça isso a uma história mais bonita.